Sexta-feira, 30 de Junho de 2006

A Engenharia Biofísica na promoção e divulgação do Ecodesign

Conceito de Ecodesign

 

Entende-se por ecodesign todo o processo que contempla os aspectos ambientais nas diferentes fases de desenvolvimento de um produto, colaborando para reduzir o impacte ambiental durante o ciclo de vida. Isto significa reduzir a produção de lixo e economizar custos de disposição finais. A definição de ecodesign proposta por Fiksel (Fiksel, Joseph - Design for environment: creating eco-efficient products and processes - 1996), diz que o projecto para o meio ambiente é a consideração sistemática do desempenho do projecto, com respeito aos objectivos ambientais, de saúde e segurança, ao longo de todo ciclo de vida de um produto ou processo, tornando-os ecoeficientes. O conceito de ecoeficiência, por sua vez, sugere uma importante ligação entre eficiência dos recursos (que leva à produtividade e ao lucro) e responsabilidade ambiental. Assim, a ecoeficiência tem também um sentido de melhoria económica das empresas, pois eliminando resíduos e usando os recursos de forma mais coerente, empresas ecoeficientes podem reduzir os custos e tornarem-se mais competitivas, obtendo vantagens em novos mercados e aumentando a sua participação nos mercados existentes devido a padrões de desempenho ambiental que se tornam cada vez mais comuns.

 

O Conceito de Ecodesign no Projecto de Engenharia Biofísica

 

A relação passível de ser estabelecida entre o Ecodesign e o Projecto de Engenharia Biofísica remete-nos para o conceito de Ciclo de Vida, ou neste caso, Análise de Ciclo de Vida de um produto, ou serviço. Assim, para se estabelecer este paralelismo, iremos efectuar a análise de ciclo de vida a uma técnica de engenharia biofísica (TEB). A análise recairá sobre uma grade de vegetação utilizada para minimizar os efeitos da erosão na margem direita do Rio Xarrama e controlar o volume e caudal de cheia. Os objectivos da TEB serão: desenho do leito de estiagem, delimitação do leito de cheia, estabilização da margem direita e, como já foi referido, controlar os caudais de ponta.

A primeira etapa será a de inventariar fluxos de maneira a quantificar as entradas e saídas de um sistema. Um inventário completo quantifica as matérias-primas, o consumo de energia e as emissões ambientais associadas às diferentes etapas do ciclo de vida de um produto.

Depois de definidos os fluxos iremos analisar, em relação à TEB, as diferentes etapas que compõem o seu ciclo de vida:

·        Aquisição de matérias-primas:

Neste primeiro ponto do ciclo de vida, os únicos materiais com necessidade de aquisição serão: os troncos, as plantas e as pedras. É necessário neste momento efectuar uma observação muito pertinente. Caso no local existam estes materiais, serão usados em detrimento de outros; em parte devido à extensão do projecto e da quantidade de material necessário, penso que existe a necessidade de adquirir, pelo menos, os troncos e as pedras. O material vivo (plantas) é obtido a partir da vegetação existente, utilizado como estacaria que permitirá a fixação da TEB. Constata-se neste primeiro ponto que o balanço entre saídas e entradas é positivo, isto é, até este momento as saídas do sistema são nulas; as entradas estão confinadas às matérias-primas que, por si só, não constituem factor de resíduo;

·        Manufactura, processamento e formulação:

Esta etapa inicia-se com a recepção das matérias-primas e termina na sua conversão em produtos finais; no caso da TEB, o produto final será a conclusão da obra.

As entradas associadas a esta etapa são nulas. As matérias-primas já deram entrada no sistema, não existe qualquer tipo de produto intermédio e só no processo de implementação da técnica é que poderão, eventualmente, serem utilizadas máquinas (escavadoras, tractores, etc.), aqui vistas como entradas de energia, neste caso: combustível.

O produto final é totalmente biodegradável, irá ser absorvido na totalidade pelo ecossistema, não provocando qualquer tipo de saídas – para isso contribui a origem dos materiais e a sua natureza. Os resíduos estão associados às emissões gasosas provenientes do possível uso de maquinaria.

·        Distribuição e transporte

A fase em questão aparece nesta altura, por estar assim definida nas normas internacionais da ACV. Considero que, no projecto em que se encontra inserida esta TEB, a análise da distribuição e transporte deveria aparecer após a fase da aquisição das matérias-primas. Só neste momento é que existe transporte de material. A parte da distribuição (actividades desenvolvidas para facilitar a transferência de produtos manufacturados, desde o produtor final até ao utilizador final), não tem qualquer sentido nesta ACV. O produto final permanece no local da manufacturação e processamento.

·        Utilização/reutilização/manutenção

A utilização, como se encontra definida nas normas, é definida como consumo de produtos, operação de equipamento e armazenamento. Como será lógico, depois de descritos os objectivos da TEB e os da ACV, não existe uma utilização definida para a estrutura final. É uma medida, um meio, e não um fim. Isto é, não é possível descortinar um uso humano, mas é vista como um meio para a requalificação da linha de água, portanto, uma requalificação ambiental. O uso esperamos nós, que venha a ser indirecto: a linha de água poderá ser utilizada para actividades conexas.

A reutilização dos materiais usados na técnica, não é possível. Mas, podem ser incorporados na técnica materiais provenientes de outros locais. Ou seja, é possível a reutilização de materiais para a técnica, mas já não é possível reutilizá-los depois de incorporados. Como exemplo, posso referir que as pedras usadas na técnica, se encontradas no local melhor, podem ter origem nos entulhos de uma remodelação/demolição executada numa casa de alvenaria.

A manutenção de uma TEB é completamente desnecessária. O que nós pretendemos é que o material inerte (pedras, troncos, etc.) seja deteriorado o mais rapidamente possível. Desta forma, a absorção pelo ecossistema é ainda mais célere.

·        Gestão de resíduos

Esta etapa compreende um conjunto de técnicas de tratamento e manuseamento dos resíduos gerados em cada etapa do ciclo de vida, antes da sua libertação para os compartimentos ambientais. Inclui: prevenção e redução da produção, reciclagem, compostagem, tratamentos físicos, químicos e biológicos e deposição em aterro.

A ZERI (Zero Emissions Research & Initiatives) é uma rede global de mentes criativas que procuram soluções aos desafios do mundo. A visão comum compartilhada pelos membros da família ZERI é ver o desperdício como um recurso e procurar soluções que usem os princípios de ecodesign da natureza como inspiração. Compreendo que, neste âmbito, o projecto construtivo em Engenharia Biofísica seja uma mais valia, segundo os princípios desta organização. O somatório dos resíduos provocado pela TEB é nulo; não existe a produção de co-produtos, ou produtos intermédios, e o produto final permite que a incorporação, por parte da natureza, seja integral.

 

Conclusões

 

“Afirmando-se como uma engenharia do espaço e funções naturais, a Engenharia Biofísica, distingue-se de outras licenciaturas no domínio do Ambiente, já que ocupa um nicho próprio, o da utilização dos elementos e sistemas naturais na construção de ecossistemas equilibrando as exigências crescentes das sociedades humanas e a preservação e promoção dos sistemas e comunidades naturais. Para tal, atribui uma importância crucial à obtenção e processamento da informação biofísica num formato susceptível de ser utilizado, quer no planeamento, projecto e gestão do território e seus elementos, quer na construção de estruturas, que cumprindo objectivos de uso, se integrem o mais possível na natureza e funcionalidade natural do lugar. Ao focar-se no conhecimento e gestão das variáveis e processos biofísicos assume-se integralmente como uma Engenharia da Natureza, quer se materialize na suas vertentes de caracterização ambiental ou de gestão ambiental, quer ainda na vertente mais aplicada de construção com sistemas vivos. Apresenta-se assim como uma engenharia de caracterização e avaliação ecológica aplicada quer à construção, quer ao planeamento e gestão de um território sustentável onde o crescimento da qualidade de vida das sociedades humanas se faça no equilíbrio com o crescimento da funcionalidade e potencialidade dos sistemas e comunidades naturais.” in página da Internet da Licenciatura em Engenharia Biofísica (http://www.dpbp.uevora.pt/engbio2.htm).

A Engenharia Biofísica – Ordenamento e Gestão Ambiental, no ramo de Projectos Construtivos em Engenharia Biofísica, assume-se como um verdadeira promotora, e divulgadora, do Ecodesign. As bases que definem o conceito são as mesmas que regem os princípios do projecto construtivo. Faço aqui uma ressalva aos três conceitos que guiam a actuação do Engenheiro Biofísico: sustentabilidade ambiental, económica e social do projecto, uma engenharia verde – ajudar a natureza a fazer o seu trabalho e, por último, o projecto biofísico é o “pontapé de saída”, a natureza ocupar-se-á do resto.

publicado por saLOMOn às 23:30

link do post | comentar | favorito

.algo mais...

.pesquisar

 

.Novembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.últimos posts

. A bonança

. Verão 2007…

. O ano do dois, double "0"...

. A Engenharia Biofísica na...

. Os valores técnicos, mora...

. NORTE, SUL, ESTE E OESTE…...

. 25 de Abril, sempre!!!

. Olhem, olhem... um blog n...

.arquivos

. Novembro 2007

. Agosto 2007

. Janeiro 2007

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

.links

.subscrever feeds